quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Em Carvalhais trabalhou-se o barro…



“Para ser belo o púcaro devia ser bem vermelho e o costume era roçarem-no com uma pedra até aparecer barro novo”

Nesta Freguesia e lugar de Carvalhais de Lavos, marcava o calendário o ano de 1905, aqui, existia uma Cerâmica, dentro da qual funcionava também uma Fábrica de Faianças.
Na estrada que actualmente nos leva de Carvalhais à Central, logo após o Cruzamento para a Fonte dos Caçadores, ao nosso lado esquerdo, era ai, junto a um terreno avermelhado de grandes dimensões que se situava a dita Cerâmica. Nas suas traseiras, a extracção de barro vermelho que abunda na zona, e que servia de matéria-prima para tijolos e telha usada na época.
Trabalhavam na fábrica de Faianças apenas 3 homens maiores de 21 anos e 3 homens maiores, um de 18 anos, um de 16 anos, e o último de 14 para 15 anos.
As jornas destes operários eram de 500 Réis para os homens, 400 Réis para o rapaz de 18 anos, 180 Réis para o rapaz de 16 anos e 100 Réis para o último.
Na parte de Cerâmica, os operários ultrapassavam os 20 homens, que por 10 Tostões diários, tinham a seu cargo a feitura de tijolos (Tijolo burro) e telhas (Telha Marselha).
Os mercados de venda eram a própria Freguesia de Lavos, a do Paião, e grande parte do baixo distrito de Leiria, para onde era conduzida em carros de bois. Os barros empregados no fabrico eram extraídos em Vila-Verde, próximo da Figueira da Foz, de onde eram conduzidos em barcos até ao Cais de Armazéns de Lavos, e depois em carros de bois até à fábrica, que se situava nas proximidades de Carvalhais ficando cada metro cúbico a 1$100 Reis. O carregamento era deixado nas proximidades da fábrica para a primeira fase, onde se juntavam os barros, e assim corrigir a textura, em virtude deste barro sozinho, ser excessivamente plástico, ficando no fim de pronta a matéria-prima, a 500 Reis (o metro cúbico, posto na fábrica). A dosagem dos barros para a formação da pasta para confecção das peças era de 4 partes do barro de Vila Verde, (barro branco) por uma de Carvalhais (barro encarnado). A produção anual regulava os 1500$00 Reis.
Sentado num banco, de mãos trémulas e sorriso jovial, recordamos esta época com o Sr. Umbelino Ramalho de 81 anos, sempre morador em Carvalhais, toda a vida lavrador e servidor de gado de profissão, que muito trabalhou para a dita fábrica. Com o seu Carro de Bois, muitas vezes transportou o barro desde Armazéns até á fábrica; a Carvalhais, assim como fez imensas entregas de loiça pelos arredores de Pombal, Leiria, etc. … “Tinha uns sete anos quando o meu Pai lá trabalhava e eu brincava lá muitas vezes, às vezes pendurava-me na máquina que levava os tijolos e telhas para o andar de cima para secar, e brincava com aquilo… e a máquina do barro? Era uma máquina parecida com as máquinas de comboio, trabalhava a lenha e tinha correntes, largava fumo e tudo, e andava em carris dentro da fábrica, era de lá que saiam as telhas…” recorda os tempos em que a fábrica pertencia a Joaquim Ferreira Bicho, como tempos áureos e prósperos, onde dava gosto trabalhar, pois a fábrica não dava vazão a tanto trabalho… mais tarde, já trabalhador da fábrica, fazia a trasfega tanto do barro que chegava a Armazéns, e o levava até ao destino; como depois de tudo pronto saia carregado da Fábrica e corria todos os pontos de venda com o seu carro de Bois que já transportavam o produto final.
Os processos de fabrico desta Fábrica de Carvalhais; forno de cozedura e produtos fabricados eram perfeitamente iguais aos de Coimbra; cidade que na altura possuía o maior número de cerâmicas, e que acolhia os grandes mestres, mas esta fábrica porém era muito mais modesta que qualquer daquelas. Os instrumentos e utensílios empregados no fabrico eram também os mesmos que os de Coimbra, e além das loiças vulgares para uso doméstico, fabricavam-se na Olaria vasos para jardim, balaústres, tijolos e alguns azulejos, embora esta Fábrica de Carvalhais tivesse apenas duas rodas ou tornos de oleiros.
A pasta para a fabricação de qualquer peça, que tinha que servir ao lume, era composta de duas partes de barro vermelho, e uma de áspero, misturadas em partes iguais. Os Oleiros não desenformavam a loiça sem estarem presentes os respectivos juízes, que faziam uma avaliação da qualidade da peça, e depois esta, seguia através de um “elevador” improvisado para o primeiro andar da Fábrica, onde era exposta para secar.
A matéria-prima de que principalmente se compõe a faiança é a argila, e é de sua abundância que depende a criação de fábricas de loiças em certos e determinados lugares, no caso das Cerâmicas de Carvalhais, este não abundava, dai a necessidade de o transportar de Vila-Verde, mas em virtude da Fábrica possuir condições para o fabrico de faianças, o desejo de fazer mais e melhor compensava o esforço do transporte da matéria-prima base. O barro (este sim, existente em abundância no local), depois de amassado, lavado e peneirado moldava-se em forma ou à mão, e concluída a peça, e enxuta metia-se no forno: em estado de cozida, revestia-se por aplicação ou imersão de um esmalte líquido, composto de silicatos de estanho ou de chumbo, areia e cloreto de sódio.
O estanho dava ao esmalte a alvura opaca que o distinguia, podendo ser a peça ornamentada em cru, ou depois de cozida, sujeitando-a a um lume brando, que operando a fusão da tinta, não prejudicasse a pasta sobre que se aplica; segundo o Sr. Umbelino, lindas ficavam as peças; “… umas tinham umas florinhas de lado, outros uns ramalhetes, e já havia também umas com letras, e eram clarinhas as peças…”
Na fábrica de Carvalhais eram fabricados: Bilhas de barro, bilhas de asas simples e espalmadas, Ovóide. As chamadas infusas e pichel (Jarras de vinho), cântaro, talhas e púcaras.
Segundo as contas do Sr. Umbelino, estas Fábricas encerraram à cerca de 40 anos, por falência… “ nos últimos tempos a fábrica pertencia ao Alferes Silva, e as telhas já vinham todas marcadas com o seu nome, mas durou pouco, porque depois fechou as portas. Eu ainda por lá andei depois muitos anos, pois transportava então o barro (que era muito), lá do Lugar da Cerâmica até à Silveirinha, para a fábrica de telhas e tijolos Maçarico… Lá há muitas fábricas, mas depois deixei-me disso!”…
Assim terminou este reviver de um tempo passado, dali, acompanhou-me o Sr. Umbelino até ao ponto, onde outrora existiam as famosas Fábricas, para me apresentar o local, e registar o momento. Ali chegados, com as pernas trémulas e a vista cansada e meia turva, contemplou a “mancha” de terra vermelha que ali persiste, com a voz meio abafada pela nostalgia, ergueu a singela bengala que trazia e apontou na sua direcção. Disse apenas; “aqui há muitos anos existiram as Cerâmicas de Carvalhais!”…


Lia Costa , retirado do Facebook de Lavos

1 comentário:

Joaquim Moço disse...

De muito bom gôsto a reportagem sôbre a Cerâmica, ainda mais contando com o depoimento pessoal do Sr. Umbelino Ramalho que por lá trabalhou. Matéria elucidativa principalmente para os Carvalhenses das novas gerações. Meus parabens ao autor da reportagem. Assim como o Sr. Umbelino falou (aqui há muitos anos existiam as cerâmicas de Carvalhais), tambem há muitos anos existiam as Forjas. Uma que conheci e marcou minha infância foi a que era carinhosamente conhecida como a FORJA DO ZÉ CEGO, trabalhando com seus filhos Carlos, Joaquim e Manuel Pinto. Hora do Blog dos Carvalhais dar um pouco mais de espaço para êsse tipo de reportagem, mostrando o que se fazia nos Carvalhais e deixar um pouco de lado as famosos enquetes que não trazem absolutamente nada de aproveitável para quem quer que seja

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